O agronegócio, motor de 25% do PIB brasileiro, historicamente esteve distante do investidor comum. Para decodificar o instrumento financeiro que está mudando essa realidade, o programa “Energia & Agro”, do Canal Agro+, recebeu o economista e especialista em finanças Rogério Boeri.
Com vasta experiência no Ministério da Fazenda, em conselhos de grandes instituições e na gestão de fundos, Boeri explicou de forma clara o que é o FIAGRO (Fundo de Investimento em Cadeias Agroindustriais) e como ele funciona como uma ponte entre a poupança popular e o campo.
O Que é o FIAGRO? Democratizando o Investimento no Agro
“O FIAGRO foi uma forma de a gente tentar conectar o mundo agro à poupança popular do brasileiro”, definiu Boeri. Antes dele, investir diretamente no setor era um privilégio de investidores qualificados e de grandes fortunas.
Agora, o cenário é outro. O FIAGRO funciona como um grande fundo de investimento negociado na Bolsa de Valores, permitindo que qualquer pessoa, física ou jurídica, possa comprar cotas e, assim, investir seu dinheiro na atividade mais importante da economia brasileira.
Os recursos dos cotistas são reunidos e utilizados para financiar toda a cadeia produtiva: desde a produção de insumos e a atividade agropecuária em si, até o beneficiamento dos produtos e a geração de bioenergia.
Para o Produtor Rural: Como Captar Recursos via FIAGRO?
Do ponto de vista do produtor ou da agroindústria, o FIAGRO se apresenta como uma alternativa poderosa ao crédito tradicional. O processo funciona da seguinte forma:
| * Captação: O produtor emite títulos de dívida (como um CRA – Certificado de Recebíveis do Agronegócio) que são comprados pelo FIAGRO. Na prática, é como se o fundo estivesse emprestando dinheiro para financiar a produção. |
- Onde Buscar: O caminho não são os bancos tradicionais, mas sim as gestoras de investimentos que administram os FIAGROs.
- Flexibilidade: Os recursos podem ser usados para diversas finalidades, desde custeio da safra até a aquisição de terras. “O FIAGRO compra a terra e arrenda. Às vezes, o arrendatário pode comprar a terra no final de determinado período”, explica Boeri.
Para o Investidor: Por que Este é um Bom Momento para Entrar?
Para quem está na cidade e deseja participar dos ganhos do campo sem precisar “ter terra debaixo da unha”, o FIAGRO é, segundo Boeri, “o melhor caminho”. Ele aponta duas razões estratégicas para o momento atual:
| 1. Preços Acessíveis: Com a taxa de juros (Selic) em patamares elevados, os preços das cotas dos FIAGROs estão descontados. “Eles são inversamente relacionados com a taxa de juros”, destaca. A tendência de queda da Selic deve valorizar as cotas no curto e médio prazo. |
- Diversificação e Segurança: A maioria dos FIAGROs investe em diversos produtores, culturas e até regiões, diluindo o risco para o investidor. É possível encontrar fundos especializados em grãos, café, cana-de-açúcar ou “multimercados”, que atuam em várias frentes.
“Se você acha que a produção agropecuária brasileira vai crescer, o que você faz? Você compra um FIAGRO”, aconselha o especialista.
Crescimento Vigoroso e o Elo com a Sustentabilidade
Apesar de ser um instrumento recente (a lei é de 2021), o FIAGRO já movimenta mais de R$ 40 bilhões. O potencial, no entanto, é muito maior. “Nós só temos 7% do mercado de capitais voltado para o agro. Temos um espaço muito grande para crescer”, projeta Boeri.
Além disso, o fundo tem um vínculo direto com a agenda de sustentabilidade. A regulamentação permite que os FIAGROs comprem títulos verdes, como a Cédula de Produtor Rural (CPR) Verde e até mesmo CBIOs (Créditos de Descarbonização), incentivando financeiramente quem produz de forma sustentável.
Para quem quer começar, a orientação é simples: com valores a partir de R$ 100 já é possível comprar cotas. O primeiro passo é pesquisar os relatórios gerenciais que todos os FIAGROs listados em bolsa disponibilizam publicamente, entendendo onde o seu dinheiro será aplicado.

